Colossenses 2:16-23 – Exegese e Aplicação

de Dennis Downing

Parte II Col 2:18-23

Col 2:18-19
18 Ninguém se faça árbitro contra vós outros, pretextando humildade e culto dos anjos, baseando-se em visões, enfatuado, sem motivo algum, na sua mente carnal, 19 e não retendo a cabeça, da qual todo o corpo, suprido e bem vinculado por suas juntas e ligamentos, cresce o crescimento que procede de Deus.

A palavra traduzida “árbitro” é katabrabeuo (katabrabeuw) é um hapax legomena que ocorre nesta forma somente aqui. A palavra era usada no sentido de árbitro de jogos ou esportes. No contexto significa “decidir contra, privar, condenar”[4], e precisamente “reter o prêmio do vencedor”[5]. Da mesma maneira que o alvo de Paulo em v. 16 foi a pessoa que se colocava como juiz, aqui o alvo dele é alguém se constituindo de árbitro sobre o Cristão. Esta frase “reafirma o apelo básico de Paulo: vocês já são membros do corpo de Cristo, e a ninguém é permitido tirá-los do quadro.”[6] Novamente, Paulo condena a tentativa de alguém julgar um Cristão por causa de coisas que, em si, não constituem pecado.

Aparentemente, estas pessoas impressionavam com sua suposta “humildade”, sua religiosidade e suas afirmações de terem visões. No entanto, suas mentes, ao invés de serem espirituais, eram carnais. A prova de que estas pessoas estavam equivocadas é que elas não demonstravam nenhum vínculo com o cabeça que é Cristo. Paulo fez questão de mostrar que, em questões de julgar e condenar, ou de aceitar e justificar, em Cristo, nós já temos tudo que precisamos e somente a Cristo pode ser atribuída esta função. Nenhum homem deve ousar julgar ou condenar ou tentar estabelecer padrões para julgar ou condenar Cristãos.

Obviamente, há pecados que condenam, e, mais adiante Paulo fará referência a estas coisas como “prostituição, impureza, paixão lasciva...” e etc. (3:5-11) Mas devemos notar que questões como de datas, comemorações e festas não constituem base para julgamento de ninguém, a não ser que alguém tente usar estas coisas como base para julgar outros. Aí, sim, há julgamento, mas, quem é condenado é aquele que tentar julgar os outros por meio de algo que não constitui base de julgamento segundo o Evangelho.

É impressionante a seqüência de afirmações que Paulo faz sobre a situação dos Cristãos em Colossos. Eles não devem dar a mínima importância a estes preceitos de homens. Em Cristo, já foram libertos e aperfeiçoados e não há nenhuma dívida entre eles e Deus. Eles estão livres de qualquer forma de julgamento ou condenação.

Col. 2:7 “nele radicados, e edificados, e confirmados na fé”
2:8 “Tenham cuidado para que ninguém os escravize...” (NVI)
2:10 “Também, nele, estais aperfeiçoados.”
2:11 já “fostes circuncidados”
2:12 já foram “sepultados” e “ressuscitados”
2:13 antes estavam “mortos” nos seus pecados, mas, agora estão “vivos” em Cristo
2:14 a dívida de todos já foi cancelada
2:15 quanto aos principados e potestades, ou seja, os árbitros e juizes deste mundo, Cristo triunfou sobre eles na cruz.

Portanto os Cristãos em Colossos não devem dar nenhuma importância às pessoas que tentavam impor estas ordenanças. Mais adiante em 3:15 Paulo usará um verbo da mesma raiz do “árbitro” de v. 18, brabeu (brabeuw = “arbitrar”) para descrever o trabalho de Cristo “Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração”. O único que pode nos julgar e que deve julgar é Jesus. A única base pela qual alguém pode e deve ser julgado é por meio de Cristo e do Evangelho.

Agora, Paulo vai perguntar aos Cristãos Colossenses, como eles podem querer voltar ao mesmo padrão de julgamento uma vez que já foram libertos destes preceitos humanos e dos árbitros deste mundo.

Col. 2:20-22
20 Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: 21 não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro, 22 segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas estas coisas, com o uso, se destroem.

A palavra traduzida “ordenanças” é a palavra grega dogmatizo (dogmatizw) outra hapax que quer dizer “submeter a regras e regulamentos”[7]. “Col. 2:14 emprega a palavra para significar as ‘exigências legais’ impostas sobre nós, que Deus já cravou na cruz. Sendo assim, Col. 2:20 proibiu a igreja de permitir que estatutos, regras ou regulamentos a respeito de comida e da pureza cerimonial fossem impostos sobre ela (cf. v.21).”[8]

Em v. 21 Paulo dá três exemplos, provavelmente exagerados para efeito, das ordenanças que não têm valor. Notamos que a ordem é cada vez mais severa. Ela começa com a proibição de manusear e acaba proibindo até o tocar. Tem sido proposto que Paulo esteja ironizando e de certa forma ridicularizando estas pessoas e seus preceitos. Isto é bem possível. De qualquer forma, Paulo despreza estas atitudes. As exigências citadas como exemplos provavelmente têm a ver com alimentos, mas são representativas de outros tipos de ordenanças parecidas.[9]

Por que devem ser rejeitados estes mandamentos e proibições?
Paulo cita pelo menos três motivos..
1. Estas coisas perecem, ou seja, não se tratam de coisas eternas.
2. As leis são de origem humana e não divina.
3. No final elas não resolvem o verdadeiro problema.

F.F. Bruce comentou que “A imposição de proibições por fora, não consegue fazer nada para criar ou desenvolver nova vida por dentro.”[10] Notamos que havia dois tipos de ordenanças sendo impostas em Colossos. Um tipo era da imposição de certos dias e datas. O outro tipo era da proibição de certas coisas, provavelmente alimentos, mas podia haver outros aspectos. O que devemos observar é que tanto uma imposição como uma proibição que se baseia em algo que não seja de Cristo é para ser rejeitada.

Col. 2:23
Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade.

As proibições e exigências do grupo em Colossos pareciam ter fundamento. Parecia que havia “sabedoria”, um aspecto religioso, uma “humildade” e um rigor eficaz para alcançar a espiritualidade que todo Cristão deseja. No entanto, Paulo mostra que a “sabedoria” era apenas aparente, a religiosidade era voltada para si mesma, a humildade era falsa, e o rigor alcançava apenas as coisas externas, mas não tinha efeito algum para fazer alguém mais espiritual.

A palavra traduzida “culto de si mesmo” ethelothreskia (eqeloqrhskia) (na NVI “pretensa religiosidade”), é outra hapax. Significa “pretensão à religião”. As pessoas que promoviam estas ordenanças como o meio para alcançar a verdadeira espiritualidade se achavam religiosas. No entanto, a religião delas era justamente delas mesmas. Não era a religião de Deus. A prova disso é o fato de que suas exigências e proibições não se baseavam em Cristo nem na Palavra do Senhor. Elas se baseavam em preceitos humanos.

Esta passagem, e especialmente este versículo, servem de alerta para todos nós que estudamos e ensinamos a Palavra do Senhor. Há uma enorme responsabilidade de usar rigorosa objetividade no nosso estudo e ensino da Palavra. Há sempre uma tentação de tentar persuadir os irmãos de nossas convicções pessoais quanto a tudo aquilo que trata da vontade de Deus na vida do discípulo.

Todos nós temos preferências pessoais em várias áreas da vida Cristã. Estas preferências atingem muitas vezes questões ligadas à própria igreja nas suas reuniões e cultos. Temos preferências pessoais na área de louvor ou adoração. Há preferências pessoas no ensino ou evangelismo, ou na organização e liderança da igreja local. Às vezes, não encontrando um mandamento que afirma o que nós pensamos ou uma condenação clara daquilo que não aceitamos, apelamos para declarações ou insinuações do tipo “Deus não aprova tal coisa” ou “não há autorização bíblica para tal”. Às vezes afirmamos que algo não está dentro do “padrão” bíblico ou “não há nenhum exemplo bíblico da igreja primitiva fazer dessa maneira”.

Com declarações e raciocínios parecidos convencemos a nós mesmos e a outros que aquilo que estamos tentando proibir ou condenar é realmente condenado por Deus. Mas, podemos estar justamente cometendo o erro que pessoas influentes na igreja em Colossos cometeram – criaram um culto de si mesmo. O que é ensinado muitas vezes usando a própria Bíblia como “apoio” tem “aparência” de sabedoria, parece bem culto e religioso, e aquele que ensina aparenta ter ao mesmo tempo bastante humildade e um zeloso rigor para com as coisas de Deus. No entanto, como Paulo afirmou, tais coisas “não tem valor algum” e sua religião não passava do telhado do prédio.

Não há nada errado em Cristão ter preferência pessoal. É natural e inevitável. O que tem que ser vigiado e evitado é que estas preferências pessoais não comecem a tomar uma importância que não lhes é dada no Evangelho. Não é difícil qualquer professor, mestre, evangelista, pregador ou missionário começar a impor suas preferências e opiniões pessoais como base para julgar e condenar outros. Mas, a alerta de Paulo para os Cristãos em Colossos serve também para nós hoje – a única base para julgar, para aceitar ou condenar é aquela que foi lançada na cruz – Jesus Cristo e o Seu Evangelho. Qualquer outra coisa é obra humana e não somente é de nenhum valor, mas ameaça a supremacia que pertence somente a Cristo Jesus.

Paulo volta em Colossenses 3:1-4 a afirmar a suficiência de Cristo e a supremacia das coisas lá do alto. É notável que em contraste com proibições e ordenanças aqui, ele exorta os irmãos a colocarem suas mentes nas coisas lá do alto.

Col 3:1-4
1 Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. 2 Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; 3 porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus. 4 Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então, vós também sereis manifestados com ele, em glória.

À primeira vista, parece que as exortações “buscai as coisas lá do alto” (v.1) e “pensai nas coisas lá do alto” (v.2) são no sentido de evitar algum pecado ou tentação carnal. Na verdade, o contrário das coisas “lá do alto” são as ordenanças que Paulo rejeitou em capítulo 2. Capítulo 3:1-4 é ligado a tudo que veio antes pelo “portanto” (oun) que começa a frase. Lembrando sua afirmação em 2:12 “fostes ressuscitados” e 2:13 “estáveis mortos”, Paulo reafirma os mesmo pontos em 3:1 e 2. Este trecho serve portanto como uma conclusão para tudo que Paulo estava dizendo antes. Ele reafirma a importância de Cristo como único meio de salvação e a suficiência e segurança da nossa confirmação nEle.

O perigo de começar a se importar com valores fora de Cristo é que eles tiram a preeminência dEle. “Quando fazemos de Cristo e da revelação Cristã apenas parte de um sistema religioso ou filosófico, deixamos de dar a Ele a preeminência. Quando buscamos ‘perfeição espiritual’ ou ‘realização espiritual’ por meio de fórmulas, disciplinas ou rituais, nós regredimos ao invés de avançar.”[11]

Em seguida, Paulo afirma que a preocupação dos Cristãos quanto àquilo que poderia lhes tirar a vida eterna deve ser voltada para coisas como a “ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena”, a mentira e o preconceito (vv. 8-11). Contra estas coisas Paulo aconselha não rigor na dieta ou a submissão a ordenanças, mas o revestimento de Cristo e do caráter Cristão, em “misericórdia, bondade, humildade, mansidão e longanimidade”, incluindo o perdão e o amor mútuo. Paulo continua a exortar os Colossenses no sentido de se fortalecerem através da Palavra e de louvores e cânticos. Em seguida ele dá conselhos práticos sobre a vida conjugal e familiar e em relação a servos. Paulo termina a epístola com várias saudações e outras recomendações práticas.

 


Em Parte III teremos a conclusão e aplicação de Colosenses 2:18-23.


[4]Artigo “katabrabeuw”em Gingrich, e Danker, Léxico do Novo Testamento Grego / Português, p. 109.
[5]Ringwald, A., artigo “brabeion” (Prêmio) em Brown, Colin, O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Edições Vida Nova, 1978, tradução Gordon Chown, Vol. 3, p. 92.
[6]Wright, N.T. Colossenses e Filemom (Colossians and Philemon) Tyndale New Testament Commentary, Grand Rapids: Eerdmans, 1986, p. 121.
[7]Artigo dogmatizw em Gingrich, e Danker, Léxico do Novo Testamento Grego / Português, p. 58.
[8]Esser, H.H., artigo “dogma” (Mandamento, Ordem) em Brown, Colin, O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Vol. 3, pp. 124-5.
[9]Constable, Thomas L., Anotações sobre Colossenses (Notes on Colossians) (2002 Edition) Copyright 2002 Thomas L. Constable, published by Sonic Light www.soniclight.com.
[10]Bruce, F.F. Comentário sobre Colossenses, Filemom e Efésios (The Epistles to the Colossians, Philemon, and to the Ephesians) Grand Rapids: Eerdmans, 1984, p. 126.
[11]Wiersbe, Warren W. The Bible Exposition Commentary. 2 vols. Wheaton: Scripture Press, Victor Books, 1989, vol. 2, p. 104, citado em Constable, Dr. Thomas L. “Notes on Colossians”

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