Redimindo o Código Da Vinci (Parte I)

de Michael Gleghorn

Introdução ao Código Da Vinci

O livro de Dan Brown, O Código Da Vinci,[1] gerou um enorme interesse da parte do público leitor. Aproximadamente 40 milhões de cópias já foram vendidas mundo afora.[2] E, Ron Howard e a Sony Pictures estarão trazendo a estória para os cinemas a partir do dia 19 de maio.[3] A fim de responder a alguns dos desafios que este livro apresentou ao cristianismo bíblico, o site Probe tem entrado em parceria com o EvanTell, um ministério de treinamento evangelístico, para produzir uma série em DVD chamada Redimindo o Código Da Vinci. A série tem o objetivo de fortificar a fé dos crentes e equipá-los para compartilhar sua fé com aqueles que verão o filme ou já leram o livro.[4] Eu espero que este artigo também venha a encorajar você a usar este evento a fim de testemunhar a verdade aos amigos ou familiares que já leram o livro ou viram o filme.

Por que tanto alvoroço por conta desta obra de ficção? A estória começa com o assassinato do curador do Louvre. Mas este curador não está apenas interessado em arte; ele também é o Grão-Mestre de uma sociedade secreta chamada de O Priorado de Sião. O Priorado guarda um segredo que, se revelado, poria em descrédito o cristianismo bíblico. Antes de morrer, o curador tenta passar o segredo para sua neta Sofia, uma criptógrafa, e o professor de Harvard Robert Langdon, deixando uma série de pistas que ele espera irão guiar os dois à verdade.

Então, qual é o segredo? A localização e identidade do Santo Graal. Mas na ficção de Brown, o Graal não é o tal cálice usado por Cristo na última ceia. Ao contrário, é Maria Madalena, a esposa de Jesus, que carrega o sangue da linhagem real de Cristo por ter dado à luz Seu filho! O Priorado de Sião guarda o segredo da localização da tumba de Maria e serve para proteger a linhagem de Jesus que existe até os dias de hoje!

Alguém leva a sério esta idéia? Sim, há pessoas que levam a sério. Isto se deve parcialmente à forma como a estória foi escrita. A primeira palavra que alguém encontra no Código Da Vinci é a palavra “FATOS” em letras em negrito e em maiúsculo. Pouco depois, Brown escreve: “Todas as descrições de obras de arte, arquitetura, documentos e rituais secretos nesta ficção são exatas”.[5] E o leitor comum, sem conhecimento especializado destas áreas, presumirá que a afirmação é verdadeira. Mas não é, e muitos já documentaram algumas das inexatidões de Brown nestas áreas.[6]

Brown também tem um certo jeito de tornar as teorias de sua ficção sobre Jesus e a igreja primitiva aparentemente plausíveis. As teorias são abraçadas pelos personagens mais bem educados da ficção: um historiador britânico, Leigh Teabing, e um professor de Harvard, Robert Langdon. Quando estas teorias são postas na boca destes personagens, alguém sai com a impressão de que são de fato verdadeiras. Mas são verdadeiras?

Neste artigo, eu irei argumentar que a maior parte do que a ficção conta sobre Jesus, a Bíblia, e a história da igreja primitiva é simplesmente falso. Tentarei dizer algo também sobre como este material pode ser usado no evangelismo.

Constantino Enfeitou Nossos Quatro Evangelhos?

Será que os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, os quais foram mais tarde oficialmente reconhecidos como parte do cânon do Novo Testamento, foram intencionalmente embelezados no quarto século sob as ordens do imperador Constantino? Isto é o que sugere Leigh Teabing, o historiador fictício no Código Da Vinci. Em certo ponto ele afirma: “Constantino mandou fazer uma Bíblia novinha em folha, que omitia os evangelhos que falavam do aspecto humano de Cristo e enfatizava aqueles que o tratavam como divino.” (pp. 222-223). Isto é verdade?

Em uma carta ao historiador da igreja Eusébio, Constantino de fato ordena a preparação de “cinco cópias das sagradas escrituras”.[7] Mas em nenhum lugar na carta ele ordena que qualquer dos evangelhos seja embelezado a fim de fazer Jesus parecer mais divino. E mesmo que ele tivesse feito tal coisa, teria sido virtualmente impossível conseguir que cristãos fiéis aceitassem tais relatos.

Antes do reinado de Constantino, a igreja sofreu uma grande perseguição sob o imperador Diocleciano. É difícil acreditar que a mesma igreja que havia agüentado esta perseguição lançaria fora seus estimados evangelhos e abraçariam relatos embelezados da vida de Jesus! É também virtualmente certo que se Constantino tivesse tentado tal coisa, nós teríamos muitas evidências desta tentativa nos escritos dos pais apostólicos. Mas não temos nenhuma. Nenhum deles sequer menciona uma tentativa da parte de Constantino de alterar qualquer dos evangelhos. E finalmente, alegar que os líderes da igreja no quarto século, muitos dos quais haviam sofrido perseguição por sua fé em Cristo, concordariam em juntar-se a Constantino numa conspiração deste tipo é completamente irrealista.

Um último ponto. Temos cópias dos quatro evangelhos que são significantemente mais antigas do que Constantino e o Concílio de Nicéia. Embora nenhuma das cópias seja completa, nós temos cópias quase que inteiramente completas de Lucas e João em um códice datado de entre 175 e 225 d.C., isto é, pelo menos cem anos antes de Nicéia, (ou seja, a época de Constantino). Um outro manuscrito, datando de aproximadamente 200 d.C. ou mais antigo ainda, contém quase todo o evangelho de João.[8] Mas por que isto é importante?

Primeiro, nós podemos comparar estes manuscritos pré-Nicéia com aqueles que sucederam Nicéia para ver se ocorreu qualquer alteração. Não houve nada. Segundo, as versões pré-Nicéia do evangelho de João incluem algumas das declarações mais fortes registradas sobre a divindade de Jesus (por exemplo: 1:1-3; 8:58; 10:30-33). Isto é, as mais explícitas declarações da divindade de Jesus em qualquer dos evangelhos já eram encontradas em manuscritos que pré-datavam Constantino há mais de cem anos!

Se você tem amigos não-cristãos que acreditam que esses livros foram alterados, você pode gentilmente apontá-los a estas evidências. Depois, encoraje-os a lerem os evangelhos por conta própria para descobrir quem Jesus realmente é.

Mas o que fazer se eles pensam que essas fontes não são confiáveis?

Podemos Confiar nos Evangelhos?

Embora não haja nenhuma base histórica para a alegação de que Constantino alterou os evangelhos do Novo Testamento, a fim de fazer Jesus aparentar mais divino, ainda devemos perguntar se os evangelhos são fontes confiáveis de informação sobre Jesus. De acordo com Teabing, o historiador fictício da ficção, “quase tudo o que nossos pais nos ensinaram sobre Jesus Cristo é mentira” (p. 223). Isto é verdade? A resposta depende principalmente na confiabilidade das nossas mais antigas biografias de Jesus—os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João.

Cada um desses evangelhos foi escrito no primeiro século d.C. Mesmo que sejam tecnicamente anônimos, temos evidências bastante fortes dos escritores do segundo século, tais como Papias (c. 125 d.C.) e Irineu (c. 180 d.C.), para atribuir a cada evangelho o seu autor tradicional. Se seus testemunhos são verdadeiros (e temos pouca razão para duvidar), então Marcos, o companheiro de Pedro, registrou o âmago da pregação de Pedro. E Lucas, o companheiro de Paulo, cuidadosamente pesquisou a biografia que leva seu nome. Finalmente, Mateus e João, dois dos doze apóstolos de Jesus, escreveram os livros atribuídos a eles. Se isto é correto, então os eventos registrados nestes evangelhos “estão baseados ou em testemunhas oculares diretas ou indiretas”.[9]

Mas os escritores dos evangelhos tinham a intenção de registrar com confiabilidade a vida e o ministério de Jesus? Estavam eles pelo menos interessados em história, ou será que suas agendas teológicas encobriram qualquer desejo que eles tinham em nos contar o que realmente aconteceu? Craig Blomberg, um erudito do Novo Testamento, observa que o prólogo do evangelho de Lucas “lê muitíssimo como o prefácio de outras obras comumente confiáveis de história e biografia da antiguidade”. Ele observa ainda que já que Mateus e Marcos se assemelham a Lucas em termos de gênero, “parece razoável que a intenção histórica de Lucas espelharia de perto a dos outros [evangelistas].”[10] Finalmente, João nos conta que ele escreveu seu evangelho para que as pessoas pudessem acreditar que Jesus é o Cristo, o filho de Deus, e que por meio desta crença, pudessem ter vida em Seu nome (20:31). Enquanto esta afirmação, admitamos, revela uma agenda teológica, Blomberg mostra que “se você vai ser convencido o suficiente para acreditar, a teologia tem que fluir de um história exata”.[11]

É interessante que as disciplinas da história e arqueologia são uma grande ajuda em corroborar a confiabilidade geral dos escritores dos evangelhos. Onde estes autores mencionam pessoas, lugares e eventos que podem ser conferidos com outras fontes antigas, eles se mostram consistentemente bem confiáveis. Nós precisamos informar nossos amigos não-cristãos que temos boas bases para confiar nos evangelhos do Novo Testamento e acreditar no que eles nos dizem sobre Jesus.

Mas, se eles perguntarem sobre aqueles evangelhos que não entraram no Novo Testamento? Especificamente falando, o que dizer se eles perguntarem sobre os documentos de Nag Hammadi?

[Em Parte II vamos examinar os documentos de Nag Hammadi, a formação do Cânon do Novo Testamento, e a pessoa de Maria Madalena.]



[1] Dan Brown, O Código Da Vinci (New York: Doubleday, 2003). As referências nesta tradução são à versão em português, publicada pela Editora Sextante, Rio de Janeiro, Copyright, 2003, tradução de Celina Cavalcante Falck-Cook.
[2] Veja o site official de Dan Brown em www.danbrown.com/meet_dan/ (February 1, 2006).
[3] Veja the Sony Pictures website em www.sonypictures.com/movies/thedavincicode/ (February 1, 2006).
[4] Mais informações estão disponíveis sobre a série em www.probe.org.
[5] Brown, O Código Da Vinci, 9.
[6] Por exemplo, veja Sandra Miesel, "Dismantling The Da Vinci Code," em www.crisismagazine.com/september2003/feature1.htm and James Patrick Holding, "Not InDavincible: A Review and Critique of The Da Vinci Code," at www.answers.org/issues/davincicode.html.
[7] Philip Schaff and Henry Wace, eds., Nicene and Post-Nicene Fathers (Reprint. Grand Rapids, Eerdmans, 1952), 1:549, citado em Norman Geisler and William Nix, A General Introduction to the Bible: Revised and Expanded (Chicago: Moody Press, 1986), 282.
[8] Para obter mais informação, veja Norman Geisler e William Nix, "Introdução Bíblica", Editora Vida, 1997, pp. 140-145
[9] Lee Strobel, The Case for Christ (Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1998), 25. Veja em português, “Em Defesa de Cristo”, de Lee Strobel, Editora Vida. (As páginas citadas são da versão em inglês.)
[10] Ibid., 39-40.
[11] Ibid., 40.

© Copyright 2006 Probe Ministries

[Todos os direitos reservados. Traduzido do inglês por Bio Nascimento. Reproduzido com a devida autorização. A versão em inglês deste artigo pode ser encontrado no site www.Probe.org.]

17/05/06