RAÍZES RELIGIOSAS DA PALAVRA “PAZ” (Parte 1)
Um olhar a partir das Sagradas Escrituras Judaico-Cristãs

de João Luiz Correia Júnior

Não há dúvida: estamos todos mergulhados numa profunda crise social. A violência generalizada que aí está é prova disso. O tema é manchete de jornais e revistas, bem como chamada alarmante dos programas de TV e de tele-jornais. Nas grandes capitais do Brasil, e até mesmo em muitas cidades do interior, as famílias, acuadas pelo medo, mudam de hábito: ficar em casa virou um grande programa para a noite e finais de semana. Para muitas pessoas, o portão de casa ou do prédio é o limite do mundo.

Em virtude dessa brutal situação de violência, observa-se em toda parte um grande clamor social pela paz. Esse clamor das multidões está nas ruas, por meio de grandes passeatas pela paz, e está no desejo mais profundo de cada um de nós.

Nesse contexto desafiador, uma pergunta se faz necessária: o que significa mesmo a palavra “paz”? Qual o seu real significado para o ser humano?

Numa perspectiva mais profunda, a paz não é simplesmente uma situação de ausência de violência ou de guerra; também não se garante pelo equilíbrio das forças contrárias ou pelo aumento de forças armadas (públicas ou particulares) que garantam “segurança”. A pedra angular da Paz é a Justiça Social, garantia da vida e da dignidade de todas as mulheres e homens na sociedade.

Mas, enquanto se luta por um mundo justo e fraterno por meio de políticas que garantam educação, profissão, trabalho, remuneração digna, moradia e saúde para a maioria, é fundamental também ir trabalhando a paz dentro de si, a tão sonhada “paz de espírito”. Quanto alguém vive em estado de paz, está em sintonia com o Deus da Bíblia, o Deus de Jesus, o mesmo “Que está aí” (um possível sentido do nome bíblico de Deus, Iahweh): no mais profundo do “eu” humano, na relação com o “outro”, na comunidade, enfim, no contexto vital em que estamos inseridos, profundamente interligado à totalidade do cosmos.

Diante da urgência dessa reflexão, procuramos neste artigo aprofundar a temática da paz, buscando compreender suas raízes que tocam a dimensão religiosa; e o faremos a partir da cultura religiosa em que estamos inseridos, por meio das Sagradas Escrituras judaico-cristãs.

 

1. O sentido da palavra “paz” na cultura religiosa judaica

O termo hebraico shalôm, traduzido da literatura judaica por “paz”, tem profundo significado. A “paz” nos Textos Sagrados da cultura judaica não é um pacto que possibilita uma vida tranqüila, nem o tempo da paz por oposição ao tempo da guerra... Não é mera pacividade; nada tem de semelhança com a chamada “paz de cemitério”; também não é simples ausência de crise...

Shalôm deriva de um radical que, conforme sua maneira de ser empregado, pode significar o fato de completar ou concluir um trabalho, por exemplo, completar a construção de uma casa (1Rs 9,25); o ato de restabelecer as coisas em seu antigo estado, em sua integridade, por exemplo, “apaziguar” um credor ao pagar o débito de uma transação comercial (Ex 21,34), ou cumprir os votos a Deus (Sl 50,14).

Nessa perspectiva, podemos afirmar que shalôm é uma palavra que contém a idéia de perfeição e completude, situação em que tudo é perfeito. Designa o bem-estar da vida cotidiana, o estado do ser humano em que se vive em harmonia consigo mesmo, com o outro, com a comunidade, com o ecossistema em que tal comunidade está inserida e com o Deus Eterno. Quando irromper o novo tempo, o Messias esperado é chamado pelo Profeta Isaías de Príncipe da Paz: “Um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, ele recebeu o poder sobre seus ombros, e lhe foi dado este nome: Conselheiro maravilhoso, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz” (Is 9,5s).

Por aí dá para se entender porque nos Textos Sagrados da cultura religiosa judaica o termo apareça como saudação e como expressão de bons desejos. Não é só uma mera saudação habitual, como por exemplo “bom dia”, “até logo”. Shalôm soa como uma bênção, algo tão maravilhoso que só pode vir diretamente do poder de Deus. O povo de Deus já entoava em salmos: “Iahweh dá força ao seu povo, Iahweh abençoa seu povo com paz” (Sl 29,11). De fato, o Deus da Bíblia é concebido como o “Deus da Paz”. Por exemplo, em Js 6,24, o altar de Gedeão era chamado “Iahweh-Shalom”, que significa “Iahweh é Paz”. Shalôm é, portanto, uma saudação impregnada de bênção escatológica, uma vez que contempla um dos mais profundos desejos humanos: vida com dignidade e bem-estar.

Na literatura profética da cultura religiosa judaica, já está presente uma intuição profunda: “O fruto da justiça será a paz, e a obra da justiça consistirá na tranqüilidade e na segurança para sempre” (Is 32,18). Aos poucos vai se formando a compreensão de que a paz de Iahweh Shalom é para ser construída por seus fiéis, na sociedade e no contexto histórico do tempo presente. Por aí se entende porque os profetas de Israel foram contundentes na crítica a todo comportamento social que se afasta da vontade desse Deus da Paz.

Na literatura profética, bem como em toda literatura religiosa judaica, a prática da justiça social é, sem dúvida, uma das prioridades entre as exigências do Deus de Israel, o Deus da Paz. O termo “justiça”, em hebraico sedaqah, não corresponde a uma troca de alguma coisa por outra de igual valor. Na perspectiva na literatura religiosa judaica, é algo que se estende além das relações humanas, atingindo ao sentido da própria existência humana: Pela justiça, a harmonia se expande entre as diversas criaturas de Iahweh; ela é promessa de vida e abundância, elementos constitutivos da essência de Shalôm. A injustiça rompe a unidade da obra criadora: introduz o caos no mundo e a desordem na sociedade, induzindo naturalmente à morte.

Vejamos, então, o tema da Paz, fruto da Justiça Social, em alguns desses profetas de Israel, tais como Amós, Miquéias e Isaías.

Amós, o primeiro profeta que temos conhecimento por meio da escrita, que atuou por volta de 760 a 750 a.C., em Israel (Reino do Norte), foi porta-voz da cólera divina por quem despreza o direito e escarneia da prática da justiça. Por isso o profeta denuncia a hipocrisia de um culto a Iahweh-Shalom hipócrita, desmentido diariamente pela prática daquilo que não corresponde à vontade divina:

“Ai dos que transformam o direito em veneno e atiram a justiça por terra... Eu detesto e desprezo as festas de vocês... tenho horror dessas reuniões litúrgicas... Longe de mim o barulho de seus cânticos, nem quero ouvir a música de suas liras. Eu quero, isto sim, é ver brotar o direito como água e correr a justiça como riacho que não seca” (5,7.21-24).

Desse modo, Amós critica duramente a quem se ilude pensando satisfazer ao Deus da Paz apenas participando de cultos religiosos. Louvar a Deus é importante para alimentar a fé no aspecto pessoal e coletivo, mas essa prática cultual deve estar expressa no cotidiano pela prática do direito e da justiça, fundamentos da Paz Social.

Miquéias (que exerceu sua atividade profética em fins do século VIII a.C.) lembra que é impossível haver paz social enquanto se mantém a exploração econômica, empobrecendo e marginalizando socialmente grande parte da população. Ele denuncia o comércio com que se enriquece a classe dominante (“casa do ímpio”, ou seja, de quem não faz a vontade de Deus); isso terá como conseqüência profunda instabilidade social e conseqüente ausência de paz:

“Acaso posso tolerar a casa do ímpio com seus tesouros ganhos injustamente, com sua medidas falsificadas e detestáveis: Acaso devo desculpar balanças viciadas, sacolas cheias de pesos adulterados? Os ricos prosperam com a exploração, os seus habitantes só falam mentiras e têm na boca uma língua mentirosa... Você comerá, mas não matará a fome; e a fome será a sua companheira. Você guardará, mas não poderá conservar; a sua reserva, eu a entregarei aos inimigos. Você plantará,mas não colherá; esmagará azeitonas, mas não se ungirá com azeite; pisará uvas, mas não beberá vinho...” (Mq 6,9-16)

A instabilidade nas relações sociais, a violência generalizada que amedronta todas as camadas sociais é, de algum modo, já concebida pelo profeta como conseqüência das relações sociais corrompidas pela prática da injustiça e da não observância do direito: “A terra será um lugar abandonado, por causa de seus moradores, como fruto de suas más ações” (Mq 7,13).

Isaáis, profeta que viveu no século VIII a.C. e desencadeou uma verdadeira escola inspirada em seu espírito profético, deixa claro que é possível construir a Paz Social por meio da urgente mudança de comportamento pessoal, aquilo que numa linguagem religiosa chamamos de conversão:

“Lavem-se, purifiquem-se, tirem da minha vista as maldades que vocês praticam. Parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem; busquem o direito, socorram o oprimido, façam justiça ao órfão, defendam a causa da viúva...” (Is 1,16-17).

Para o profeta, uma vida com fartura e dignidade, em pleno gozo da Paz, é conseqüência da opção de observar os conselhos de uma vida fundamentada na prática do direito e da justiça. Cabe ao ser humano, no seu livre arbítrio, seguir ou não ao projeto do Deus da Paz.

Na concepção da escola do profeta Isaías, a opção em observar a vontade de Deus concretiza uma aliança indispensável para instaurar um reinado de paz em meio aos grandes desafios da história:

“Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, que traz a boa nova, que apregoa a vitória, que diz a Sião: ‘Já reina o teu Deus’”(Is 52,7).

Os “pés do mensageiro” cheios de calos e feridas, sujos da poeira da estrada, são “belos” na poética do profeta. A razão é que tal mensageiro anuncia uma grande novidade: a reconstrução de um povo que deseja se por sob o reinado de Deus, em tempos de paz.

Esse reinado do Deus da Paz é projetado com grande apoteose para o futuro. Em Is 65,17-25 é o próprio Deus quem promete um tempo novo de alegria e paz, em que as pessoas finalmente poderão viver com dignidade, em todos os estágios da vida, desde a infância à terceira idade:

“Vejam! Eu vou criar um novo céu e uma nova terra. As coisas antigas nunca mais serão lembradas, nunca mais voltarão ao pensamento. Por isso fiquem para sempre alegres e contentes, por causa do que vou criar. Farei de Jerusalém uma alegria, e de seu povo um regozijo... E nunca mais se ouvirá choro ou clamor. Aí não haverá mais crianças que vivam alguns dias apenas, nem velhos que não cheguem a completar seus dias, pois será ainda jovem quem morrer com cem anos... Construirão casas e nelas habitarão, plantarão vinhas e comerão seus frutos... Ninguém trabalhará inutilmente, ninguém gerará filhos que morram antes do tempo... Antes que me invoquem eu responderei, quando começarem a falar, eu já estarei atendendo... O lobo e o cordeiro pastarão juntos, o leão comerá capim junto com o boi...”

Desse modo, podemos afirmar que na literatura profética de Israel já havia a consciência de que a Paz é conseqüência da prática da Justiça Social: ter uma terra fecunda para plantar e colher os frutos para ter a mesa farta e comer até se saciar; habitar em segurança, sem medo de inimigos; dormir sem temor, com as portas abertas; não ter inimigos; multiplicar-se na face da terra, podendo passar por todas as etapas da vida, da fase de criança à terceira idade... E tudo isso porque o Deus da Paz está reinando no meio do seu povo (Lv 26,1-13).

Longe de ser simples ausência de guerra, Shalom é vida em plenitude, na presença de Deus. De fato, como são belos os pés do mensageiro que anuncia esse novo tempo de paz... Nessa perspectiva poética e profética, podemos afirmar com Isaías: Como são belos os pés de quem anuncia a Boa Notícia do Reinado do Deus da Paz...

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Veja também o segundo estudo por João sobre a visão de "paz" em passagens do "segundo testamento" em RAÍZES RELIGIOSAS DA PALAVRA “PAZ” (Parte 2).


25/08/2005