A HERMENÊUTICA DE ATOS II
- A Intenção do Autor

de Gordon Fee e Douglas Stuart

Embora a intenção mais ampla e inspirada de Lucas seja uma questão debatível para alguns, é nossa hipótese, baseada na exegese precedente, que (ele) estava querendo demonstrar como a igreja emergiu como um fenômeno mundial, principalmente gentio, a partir das suas origens como uma seita de crentes judaicos, baseada em Jerusalém e orientada para Jerusalém, e como o Espírito Santo foi diretamente responsável por este fenômeno de salvação universal baseada na graça somente. O tema recorrente de que nada pode impedir este movimento para a frente da igreja no poder do Espírito Santo nos leva a pensar que Lucas também pretendia que seus leitores fossem ver este como um modelo para sua existência. E o fato de que Atos está no cânon nos leva a' pensar, além disto, que decerto é assim que a igreja sempre deveria ser — evangelística, alegre, dotada do poder do Espírito Santo.

Mas o que se diz dos pormenores específicos naquelas narrativas, as quais somente ao serem tomadas em conjunto nos ajudam a ver a intenção maior de Lucas? Estes pormenores têm o mesmo valor didático? Servem também como modelos em forma de narrativa? Pensamos que não, basicamente porque a maioria de tais detalhes são incidentais à lição principal da narrativa e por causa da ambigüidade dos detalhes entre uma narrativa e outra.

Dessa forma, quando examinamos Atos 6.1-7, vimos como a narrativa funcionou no plano global de Lucas, como uma conclusão à sua primeira seção principal, que ao mesmo tempo serviu para introduzir os helenistas. É possível que sua intenção tenha incluído, também, a demonstração da resolução amigável da primeira tensão dentro da comunidade cristã.

A partir desta narrativa, também podemos aprender várias outras coisas de modo incidental. Por exemplo, podemos aprender que uma boa maneira de ajudar um grupo minoritário na igreja é deixar aquele grupo ter sua própria liderança, selecionada pelos seus próprios membros. É o que realmente fizeram. Devemos fazê-lo? Não necessariamente, visto que Lucas não nos ordena assim, nem há qualquer motivo para acreditar que tinha aquilo em mente quando registrou a narrativa. Do outro lado, semelhante procedimento faz tão bom sentido que duvidamos que haja motivo para alguém lutar contra.

Nosso argumento é: seja o que for que alguém colher de semelhante narrativa, tais respigas são apenas incidentais à intenção de Lucas. Não se quer dizer com isto que aquilo que é incidental é falso, nem que não tem valor teológico; quer dizer, isto sim, que a Palavra de Deus para nós naquela narrativa está primariamente relacionada com aquilo que pretendeu ensinar.

A partir desta discussão, os seguintes princípios emergem no que diz respeito à hermenêutica da narrativa histórica:

1. A Palavra de Deus em Atos, que pode ser considerada normativa para os cristãos, é relacionada primariamente com aquilo que uma determinada narrativa pretendia ensinar.

2. O que é incidental à intenção primária da narrativa pode realmente refletir o modo de um autor inspirado entender as coisas, mas não pode ter o mesmo valor didático quanto aquilo que a narrativa pretendia ensinar. Não negamos, assim, aquilo que é incidental nem subentendemos que não tem palavra alguma para nós. O que argumentamos, sim, é que aquilo que é incidental não deve tornar-se primário, embora sempre possa servir de apoio adicional àquilo que é ensinado noutros trechos de modo inequívoco.

3. O precedente histórico, para ter valor normativo, deve ser relacionado com a intenção. Ou seja, se puder ser demonstrado que o propósito de uma determinada narrativa é estabelecer um precedente, logo, tal precedente deve ser considerado normativo. Por exemplo, se pudesse ser demonstrado por razões exegéticas que a intenção de Lucas em Atos 6.1-7 era dar à igreja um precedente para selecionar seus líderes, logo, semelhante processo de seleção deve ser seguido por cristãos posteriores. Se, porém, estabelecer um precedente não era a intenção da narrativa, logo, seu valor como precedente para cristãos posteriores deve ser tratado de acordo com os princípios específicos sugeridos em nossa seção seguinte.

O problema de tudo isto, naturalmente, é que tende a deixar-nos com pouca coisa que é normativa para aquela área ampla de interesse — a experiência e a prática cristãs. Não há ensino expresso quanto ao modo do batismo, à idade dos que hão de ser batizados, nem aos fenômenos carismáticos específicos que devam ser evidenciados quando alguém recebe o Espírito, nem à freqüência da Ceia do Senhor, para citar apenas uns poucos exemplos. Estas, porém, são exata-mente as áreas em que há tanta divisão entre os cristãos. Invariavelmente, em tais casos, às pessoas argumentam que é assim que eles faziam, quer derivem tais práticas das narrativas de Atos, quer por implicação com base naquilo que é dito nas Epístolas.

A Escritura simplesmente não diz que o batismo deve ser por imersão, não diz que crianças devem ser batizadas, não diz que os cristãos devem ser batizados no Espírito com a evidência das línguas como uma segunda obra da graça, e não diz que a Ceia do Senhor deve ser celebrada todos os domingos. O que fazemos, portanto, com algo como o batismo por imersão? O que a Escritura diz? Neste caso, pode ser argumentado a partir do significado da própria palavra, da única descrição em Atos de "descer à água" e de "sair da água" (8.38-39), e da analogia de Paulo, que descreve o batismo como sendo a morte, o sepultamento, e a ressurreição (Rm 6.1-3), que a imersão era a pressuposição do batismo na igreja primitiva. Não foi ordenada em nenhum lugar exatamente porque esta pressuposta.

Do outro lado, pode ser indicado que, sem um tanque batismal na igreja local da Samaria, as pessoas que foram batizadas ali devem ter tido grande dificuldade em serem imergidas. Simplesmente não se conhece qualquer suprimento de água ali que tivesse feito da imersão uma opção viável. Derramavam água sobre elas, como sugere aquele antigo manual da igreja, o Didaquê (c. de 100 d.C.), que deve ser feito quando não havia suficiente água corrente fria, ou água parada tépida, para a imersão? Simplesmente não sabemos, naturalmente. O Didaquê torna abundantemente claro que a imersão era a norma, mas também deixa claro que o ato em si é muito mais importante do que o modo. Embora o Didaquê não seja um documento bíblico, é um documento cristão muito antigo e ortodoxo, e pode ajudar-nos ao demonstrar como a igreja primitiva fazia ajustamentos pragmáticos nesta área em que a Escritura não é explícita. A prática normal (regular) servia como a norma. Mas porque era apenas normal, não veio a ser normativa. Provavelmente faríamos bem em seguir esta orientação e não confundir a normalidade com a normatividade.

[Nas próximas semanas, Deus permitindo, iremos reproduzir nesta seção mais princípios da interpretação dos senhores Fee e Stuart do seu livro “Entendes o Que Lês?”]

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O livro de Gordon D. Fee e Douglas Stuart do qual este texto foi extraído, "Entendes o que Lês?", pode ser encomendado da Edições Vida Nova
selecionando a capa do livro ao lado:  


11/09/2007