Redimindo o Código Da Vinci (Parte II)

de Michael Gleghorn

Os Documentos de Nag Hammadi

Desde a sua descoberta em 1945, tem havido um grande interesse nos textos de Nag Hammadi. O que são esses textos? Quando eles foram escritos, e por quem, e para qual propósito? De acordo com Teabing, o historiador no Código Da Vinci, os textos de Nag Hammadi representam “os registros cristãos mais antigos” (233). Estes “evangelhos inalterados”, alega ele, contam a real estória de Jesus e do cristianismo primitivo (235). Os evangelhos do Novo Testamento são supostamente uma versão posterior, corrompida destes eventos.

A única dificuldade com a teoria de Teabing é que ela está errada. Os documentos de Nag Hammadi não são “os registros cristãos mais antigos”. Cada livro no Novo Testamento é mais antigo. Os documentos do Novo Testamento foram todos escritos no primeiro século da era cristã. Ao contrário, as datas para os textos de Nag Hammadi variam entre o segundo e o terceiro século d.C. Como Darrell Bock observa no livro Desvendando o Código Da Vinci, “a base deste material está algumas gerações depois das fundações da fé cristã, um ponto vital a se lembrar quando se estiver avaliando o seu conteúdo”.[12]

Que sabemos sobre o conteúdo desses livros? É de geral acordo que os textos de Nag Hammadi são documentos gnósticos. O dogma chave do gnosticismo é que a salvação vem através de conhecimentos secretos. Como resultado, os evangelhos gnósticos, em um óbvio contraste com os evangelhos do Novo Testamento, põem quase que nenhum valor na morte e ressurreição de Jesus. De fato, a cristologia gnóstica tinha uma tendência em separar o Jesus humano do Cristo divino, vendo-os como dois seres distintos. Não foi o cristo divino que sofreu e morreu; foi meramente o Jesus humano; ou talvez até mesmo Simão, o cireneu.[13] Não importa muito para os gnósticos, porque do ponto de vista deles, a morte de Jesus foi algo irrelevante para se obter a salvação. O que de verdade importava não era a morte do homem Jesus, mas o conhecimento secreto trazido pelo Cristo divino. De acordo com os gnósticos, a salvação vem através de um entendimento correto deste conhecimento secreto.[14]

Estas doutrinas são claramente incompatíveis com o ensinamento sobre Cristo e a salvação no Novo Testamento (e.g. Rom 3:21-26; 5:1-11; 1 Cor 15:3-11; Tito 2:11-14). Ironicamente, estes ensinamentos também são incompatíveis com o ponto de vista de Teabing de que os textos de Nag Hammadi “falam do ministério de Cristo em todos os termos humanos” (223). Os textos de Nag Hammadi de fato apresentam Cristo como um ser divino, embora bem diferente da perspectiva do Novo Testamento.[15]

Assim, os textos de Nag Hammadi são posteriores aos escritos do Novo Testamento e caracterizados por uma cosmovisão que é inteiramente estranha a sua teologia. Devemos explicar aos nossos amigos não-cristãos que os pais da igreja exercitaram grande sabedoria ao rejeitar estes livros como não sendo parte do Novo Testamento.

Mas, e se eles nos perguntarem como foi decidido quais livros incluírem no Novo Testamento?

A Formação do Cânon do Novo Testamento
Nos primeiros séculos do cristianismo, muitos livros foram escritos sobre o ensinamento de Jesus e Seus apóstolos. A maioria destes livros nunca conseguiram fazer parte do Novo Testamento. Entre eles há títulos como O Evangelho de Filipe, Atos de João e Apocalipse de Pedro. Como a igreja primitiva decidiu quais livros incluir no Novo Testamento e quais rejeitar? Quando estas decisões foram tomadas e por quem? De acordo com Teabing “A Bíblia, conforme a conhecemos hoje, foi uma colagem composta pelo imperador romano Constantino, o grande” (220). Isto é verdade?

A igreja primitiva tinha critérios definidos que tinham que ser cumpridos para que um livro fosse incluído no Novo Testamento. Como Bart Ehrman observa, um livro tinha que ser antigo, escrito próximo à época de Jesus. Este livro tinha que ser escrito por um apóstolo ou um companheiro de um apóstolo. Este livro tinha ser consistente com o entendimento ortodoxo da fé. E, ele tinha que ser amplamente reconhecido e aceito pela igreja.[16] Aqueles livros que não cumpriram estes critérios não foram incluídos no Novo Testamento.

Quando estas decisões foram tomadas? E quem as tomou? Não houve um concílio ecumênico na igreja primitiva que oficialmente ordenou que os 27 livros que agora constam no Novo Testamento eram os livros certos.[17] Ao contrário, o cânon gradualmente tomou forma à medida que a igreja reconheceu e abraçou aqueles livros que foram inspirados por Deus. A coleção mais antiga de livros “a circular entre as igrejas na primeira metade do segundo século” foram os quatro evangelhos e as cartas de Paulo.[18] Não foi até quando o herege Marcião publicou a sua versão do Novo Testamento em 144 d.C. que os líderes da igreja procuraram definir o cânon mais especificamente.[19]

No final do segundo século houve um crescente consenso de que o cânon deveria incluir os quatro evangelhos, Atos, e as treze epístolas paulinas, “as epístolas de outros ‘homens apostólicos’ e o Apocalipse de João”.[20] O cânon Muratório, o qual data do fim do segundo século, reconheceu todo os livros do Novo Testamento, exceto Hebreus, Tiago, 1 e 2 Pedro e 3 João. Semelhantemente, embora não identicamente, livros foram reconhecidos por Irineu na metade do segundo século e Orígenes no começo do terceiro século. Então, enquanto a listagem mais antiga de todos os livros no nosso Novo Testamento veio de Atanásio em 367 d.C., houve um amplo acordo na maioria destes livros, inclusive os quarto evangelhos, por volta do fim do segundo século. Compartilhando estas informações “com mansidão e temor” (1 Pedro 3:16), nós podemos ajudar nossos amigos a verem que o cânon do Novo Testamento não resultou de uma decisão feita por Constantino.

Quem Foi Maria Madalena? (Parte 1)
Maria Madalena, claro, é a personagem principal no Código Da Vinci. Vamos dar uma olhada nesta figura, começando por abordar o infeliz mal-entendimento de que ela era uma prostituta. De onde veio este entendimento? E por que tantas pessoas acreditam?

De acordo com Leigh Teabing, o entendimento popular de Maria Madalena como uma prostituta “é o legado de uma campanha feita pela Igreja primitiva para sujar a imagem de Madalena”. Do ponto de vista de Teabing, “A Igreja precisou difamar Maria para encobrir o perigoso segredo dela: seu papel como Santo Graal” (231). Lembre-se, nesta ficção o Santo Gral não é o copo usado por Jesus na última ceia. Pelo contrário, é Maria Madalena, que supostamente tanto foi a esposa de Jesus, quanto aquela que levou Seu sangue real em seu ventre.

Como devemos responder a este entendimento? A igreja primitiva realmente procurou caluniar Maria como uma prostituta, a fim de encobrir sua relação íntima com Jesus? A primeira ocorrência de Maria Madalena sendo mal identificada como uma prostituta ocorreu em um sermão pelo Papa Gregório, o grande, em 591 d.C.[21] Muito provavelmente, este sermão não foi uma tentativa deliberada para caluniar o caráter de Maria. Ao contrário, Gregório provavelmente interpretou mal algumas passagens dos evangelhos, resultando em sua identificação incorreta de Maria como uma prostituta.

Por exemplo, talvez ele possa ter identificado a mulher pecaminosa sem nome de Lucas 7, a que ungiu os pés de Jesus, como sendo Maria de Betânia em João 12, a que também ungiu os pés de Jesus pouco antes de Sua morte. Esta confusão seria fácil de ocorrer. Embora houvesse diferenças, há também muitas semelhanças entre estes dois incidentes separados. Se Gregório pensou que a mulher pecaminosa de Lucas 7 era a Maria de João 12, ele poderia ter, então, erroneamente conectado esta mulher com Maria Madalena. Interessantemente, Lucas menciona Maria Madalena pela primeira vez no começo de capítulo 8, logo após a estória da unção de Jesus em Lucas 7. Uma vez que a mulher sem nome de Lucas 7 era provavelmente culpada de algum tipo de pecado sexual, se Gregório pensou que esta mulher era Maria Madalena, então não seria um pulo muito grande para inferir que ela era uma prostituta.

Se você estiver debatendo a obra de Dan Brown com alguém que é hostil para com a igreja, não tema admitir que a igreja algumas vezes cometeu erros. Podemos concordar que Gregório errou quando ele identificou erroneamente Maria como uma prostituta. Mas, devemos também observar que é bem improvável que este erro foi parte de uma campanha suja por parte da igreja primitiva. Devemos lembrar a nossos amigos que cristãos cometem erros; e até mesmo pecam, assim como qualquer outra pessoa (Rom 3:23). A diferença é que nós temos reconhecido nossa necessidade de um salvador para os pecados. E, neste aspecto, nós de fato seguimos os passos de Maria Madalena (João 20:1-18)!

Quem Foi Maria Madalena? (Parte 2)
O que nossas fontes escritas mais antigas revelam sobre a real Maria Madalena? De acordo com Teabing, Maria foi a esposa de Jesus, a mãe de Seu filho, e aquela sob a qual Ele tinha a intenção de estabelecer a igreja após Sua morte (231-237). Em apoio a estas teorias, Teabing apelou para dois evangelhos gnósticos: O Evangelho de Filipe e O Evangelho de Maria [Madalena]. Vamos primeiro dar uma olhada no Evangelho de Maria.

A seção deste evangelho citada na ficção apresenta um apóstolo Pedro incrédulo que simplesmente não pode acreditar que o Cristo ressurrecto secretamente revelou informações a Maria que Ele não tinha revelado aos discípulos homens. Levi repreende a Pedro: “Se o Salvador a tornou digna, quem es tú para rejeitá-la? Certamente o Salvador a conhece muito bem. Foi por isso que a amou mais do que ama a nós” (234).

Que podemos dizer desta passagem? Primeiro, devemos tecer a observação de que em nenhum lugar deste evangelho nós somos informados de que Maria foi a esposa de Jesus ou a mãe de Seu filho. Segundo, muitos eruditos acham que estes texto deve ser lido simbolicamente, com Pedro representado o cristianismo primitivo ortodoxo, e Maria representando uma forma de gnosticismo. Este evangelho provavelmente estaria alegando que “Maria”, isto é, os gnósticos, receberam uma revelação divina, mesmo que “Pedro”, isto é, a ortodoxia, não pode acreditar nisto.[22] Finalmente, mesmo que este texto seja interpretado literalmente, temos pouca razão para acreditar que ele seja historicamente confiável. Muito provavelmente ele foi composto em alguma época no final do segundo século, aproximadamente cem anos após os evangelhos canônicos.[23] Então, ao contrário do que a obra de ficção quer concluir, com certeza estas palavras não foram escritas por Maria Madalena, ou quaisquer outros dos seguidores de Jesus.[24]

Se quisermos informações confiáveis sobre Maria, devemos voltar às nossas fontes mais antigas: os evangelhos do Novo Testamento. Estas fontes nos dizem que Maria foi uma seguidora de Jesus da cidade da Madalena. Após Jesus ter expulsado sete demônios dela, ela, junto com outras mulheres, ajudaram a sustentar o Seu ministério (Lucas 8:1-3). Ela testemunhou a morte, sepultamento e ressurreição de Jesus, e foi a primeira a ver o Cristo ressurrecto (Mateus 27:55-61; João 20:11-18). Jesus até confiou a ela a divulgação de Sua ressurreição aos Seus discípulos masculinos (João 20:17-18). Neste sentido, Maria foi uma “apóstola” aos seus apóstolos. Isto é tudo que os evangelhos nos dizem sobre Maria.[25] Podemos concordar com nossos amigos não-cristãos que ela foi uma mulher muito importante. Mas devemos também lembrá-los de não há nada que sugira que ela foi a esposa de Jesus, ou que Ele teve a intenção de que ela liderasse a igreja.[26]

Além destas coisas, alguém que tenha lido o Código Da Vinci pode ainda ter dúvida sobre o Evangelho de Filipe? Este texto não dá indicações de que Maria e Jesus foram casados?

[Em Parte III vamos examinar se Jesus casou ou não e se seus seguidores proclamaram sua divindade.]



[12] Darrell Bock, “Breaking the Da Vinci Code” (Desvendando O Código Da Vinci) (n.p.: Thomas Nelson Publishers, 2004), 52 (cópia de pré-publicação).
[13] Ibid., 62-63. Veja também The Coptic Apocalypse of Peter and The Second Treatise of the Great Seth in Bart Ehrman, Lost Scriptures: Books That Did Not Make It Into The New Testament, (New York: Oxford University Press, 2003), 78-86.
[14] Por exemplo, The Coptic Gospel of Thomas (saying 1), em Ehrman, Lost Scriptures, 20.

[15] Bock, Breaking the Da Vinci Code, 63.

[16] Bart D. Ehrman, Lost Christianities: Christian Scriptures and the Battles Over Authentication (Chantilly, Virginia: The Teaching Company: Course Guidebook, part 2, 2002), 37.

[17] Ehrman, Lost Scriptures, 341.

[18] F.F. Bruce, "Canon," in Dictionary of Jesus and the Gospels, Joel B. Green, Scot McKnight and I. Howard Marshall, eds. (Downers Grove, Illinois: InterVarsity Press, 1992), 95.

[19] Ibid., 95-96.

[20] Ibid., 96.

[21] Darrell Bock, Breaking O Código Da Vinci (n.p. Thomas Nelson Publishers, 2004), 25-26 (cópia do manuscrito pré-publicado). Eu dependi grandemente da análise do Dr. Bock, nesta secção.
[22] Ibid., 116-17.

[23] Bart Ehrman, Lost Scriptures, 35.

[24] Brown, O Código Da Vinci. Na página 247, lemos: “Sofia não tinha conhecimento de que um evangelho existia nas palavras de Madalena”.
[25] Um “apóstolo” pode simplesmente referir-se a “alguém enviado”, como um núncio ou mensageiro. Maria era uma “apóstola” neste sentido, uma vez que ela foi enviada por Jesus para contra aos discípulos de Sua ressurreição.
[26] Para obter mais informação, veja Bock, Breaking the Da Vinci Code, 16-18.

© Copyright 2006 Probe Ministries

[Todos os direitos reservados. Traduzido do inglês por Bio Nascimento. Reproduzido com a devida autorização. A versão em inglês deste artigo pode ser encontrado no site www.Probe.org.]

19/05/06